quarta-feira, 29 de maio de 2019

Os Aliens e Nós - Parte 131


      “Depois de dois ou três copos daquela bebida, meu pai olhou fundo dentro dos meus olhos, como se tivesse decidido me revelar o maior segredo de sua vida.
      - Você se lembra de nosso jardim lá em Hisoy? – começou.
      Não me dignei a responder a uma pergunta tão tola e deixei meu pai sem resposta.
      - O.k. – continuou ele. – Agora ouça bem, Hans-Thomas. Vamos imaginar que um belo dia você vá até o jardim e descubra entre as macieiras um pequeno marciano. Digamos que ele seja um pouco menor do que você e que seja amarelo, ou verde, como a sua imaginação quiser.
      Concordei com a cabeça, como era de se esperar. Não tinha sentido protestar contra o tema daquela conversa.
      - Digamos que a estranha figurinha erga os olhos e firme o olhar em você. Sabe, os extraterrestres gostam de encarar os outros – prosseguiu meu pai. – Até aí tudo bem. A questão é saber como você reagiria.
      Quis dizer que convidaria o sujeito para tomar café da manhã, mas para ser fiel à verdade, disse que era provável que soltaria um grito de susto e de medo.
      Meu pai concordou e ficou visivelmente satisfeito com  aquela resposta. Ao vê-lo assim tão satisfeito, entendi que ainda não tinha terminado de dizer tudo o que queria.
      - Você não acha que ficaria um tanto espantado e curioso para saber quem era aquele extraterrestre e de onde ele vinha?
      - É claro – respondi.
      Mais uma vez ele fez um gesto com a cabeça e uma expressão de quem estava analisando meticulosamente todas as pessoas que se encontravam naquela praça. Depois perguntou:
      - Já te ocorreu alguma vez que você mesmo pode ser esse homenzinho de Marte?
      Já estava acostumado com todas aquelas coisas do meu pai, mas confesso que ao ouvir isso tive de me segurar no canto da mesa para não cair da cadeira.
      - Ou um homenzinho da Terra, se você preferir – prosseguiu ele. – No fundo não importa o nome do planeta em que vivemos. O fato é que você também é uma criatura de duas pernas que vive andando daqui para lá num globo que vagueia pelo universo.
      - Exatamente como os marcianos – completei.
      Ele concordou.
      - E pode ser até que você esteja passeando pelo jardim e, em vez de dar de cara com um marciano, dê de cara com você mesmo. E pode ser que nesse momento você dê aquele grito que daria se encontrasse um marciano. Isso para dizer o mínimo, pois afinal de contas não é todo dia que a gente se descobre um habitante vivo de um planeta que não passa de uma ilhota no universo.
      Entendi o que ele queria dizer, mas não soube o que falar. Não era fácil fazer algum comentário àquele tema.
      - Você se lembra de quando assistimos a um filme chamado O encontro? – perguntou meu pai.
      Eu disse que sim. Era um filme confuso sobre pessoas que tinham visto discos voadores de um outro planeta.
      - Vamos adotar por alguns instantes a linguagem do diretor do filme: ver uma nave espacial de um outro planeta significa um contato do primeiro grau. Quando vemos criaturas bípedes saindo de dentro dessa nave falamos de um contato do segundo grau. E um ano depois do Encontro a gente assistiu a um outro filme...
      - Sim... ele se chamava ‘Contatos imediatos do terceiro grau’ – completei.
      - Exatamente. E se chamava assim porque as personagens do filme tinham tocado em androides de um outro sistema solar. Esse contato direto é o que chamamos de contato do terceiro grau. Tudo bem até aqui?
      - Tudo bem – respondi.
      Depois disso meu pai ficou olhando por um bom tempo para a praça e para os muitos cafés. E então disse:
      - Mas você, Hans-Thomas, você experimentou um contato imediato do quarto grau.
      Devo ter parecido um ponto de interrogação da cabeça aos pés.
      - Isso porque você mesmo é uma misteriosa criatura do espaço – disse meu pai enfaticamente. E ao dizê-lo, bateu com tanta força a xícara de café sobre a mesa que nós dois ficamos surpresos quando vimos que ela não tinha se quebrado. – Você é essa criatura misteriosa e a conhece como ninguém.
      Eu estava confuso, mas entendi na hora que ele tinha toda a razão.
      - Você deveria trabalhar para o governo como filósofo – eu disse. E aquilo veio do fundo do meu coração.”

      (“O Dia do Curinga”, Jostein Gaarder, Companhia das Letras, São Paulo, 1996, Páginas 108 a 110.)



(Marcos Nunes Filho – 29-5-2019)

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