“Depois de dois ou três copos daquela
bebida, meu pai olhou fundo dentro dos meus olhos, como se tivesse decidido me
revelar o maior segredo de sua vida.
- Você se lembra de nosso jardim lá em Hisoy?
– começou.
Não me dignei a responder a uma pergunta
tão tola e deixei meu pai sem resposta.
- O.k. – continuou ele. – Agora ouça bem,
Hans-Thomas. Vamos imaginar que um belo dia você vá até o jardim e descubra
entre as macieiras um pequeno marciano. Digamos que ele seja um pouco menor do
que você e que seja amarelo, ou verde, como a sua imaginação quiser.
Concordei com a cabeça, como era de se
esperar. Não tinha sentido protestar contra o tema daquela conversa.
- Digamos que a estranha figurinha erga
os olhos e firme o olhar em você. Sabe, os extraterrestres gostam de encarar os
outros – prosseguiu meu pai. – Até aí tudo bem. A questão é saber como você reagiria.
Quis dizer que convidaria o sujeito para
tomar café da manhã, mas para ser fiel à verdade, disse que era provável que
soltaria um grito de susto e de medo.
Meu pai concordou e ficou visivelmente
satisfeito com aquela resposta. Ao vê-lo
assim tão satisfeito, entendi que ainda não tinha terminado de dizer tudo o que
queria.
- Você não acha que ficaria um tanto
espantado e curioso para saber quem era aquele extraterrestre e de onde ele
vinha?
- É claro – respondi.
Mais uma vez ele fez um gesto com a
cabeça e uma expressão de quem estava analisando meticulosamente todas as
pessoas que se encontravam naquela praça. Depois perguntou:
- Já te ocorreu alguma vez que você mesmo
pode ser esse homenzinho de Marte?
Já estava acostumado com todas aquelas
coisas do meu pai, mas confesso que ao ouvir isso tive de me segurar no canto
da mesa para não cair da cadeira.
- Ou um homenzinho da Terra, se você
preferir – prosseguiu ele. – No fundo não importa o nome do planeta em que
vivemos. O fato é que você também é uma criatura de duas pernas que vive
andando daqui para lá num globo que vagueia pelo universo.
- Exatamente como os marcianos –
completei.
Ele concordou.
- E pode ser até que você esteja
passeando pelo jardim e, em vez de dar de cara com um marciano, dê de cara com você
mesmo. E pode ser que nesse momento você dê aquele grito que daria se
encontrasse um marciano. Isso para dizer o mínimo, pois afinal de contas não é
todo dia que a gente se descobre um habitante vivo de um planeta que não passa
de uma ilhota no universo.
Entendi o que ele queria dizer, mas não
soube o que falar. Não era fácil fazer algum comentário àquele tema.
- Você se lembra de quando assistimos a
um filme chamado O encontro? –
perguntou meu pai.
Eu disse que sim. Era um filme confuso
sobre pessoas que tinham visto discos voadores de um outro planeta.
- Vamos adotar por alguns instantes a
linguagem do diretor do filme: ver uma nave espacial de um outro planeta
significa um contato do primeiro grau. Quando vemos criaturas bípedes saindo de
dentro dessa nave falamos de um contato do segundo grau. E um ano depois do Encontro a gente assistiu a um outro
filme...
- Sim... ele se chamava ‘Contatos imediatos do terceiro grau’ –
completei.
- Exatamente. E se chamava assim porque
as personagens do filme tinham tocado em androides de um outro sistema solar.
Esse contato direto é o que chamamos de contato do terceiro grau. Tudo bem até
aqui?
- Tudo bem – respondi.
Depois disso meu pai ficou olhando por um
bom tempo para a praça e para os muitos cafés. E então disse:
- Mas você, Hans-Thomas, você
experimentou um contato imediato do quarto
grau.
Devo ter parecido um ponto de
interrogação da cabeça aos pés.
- Isso porque você mesmo é uma misteriosa
criatura do espaço – disse meu pai enfaticamente. E ao dizê-lo, bateu com tanta
força a xícara de café sobre a mesa que nós dois ficamos surpresos quando vimos
que ela não tinha se quebrado. – Você
é essa criatura misteriosa e a conhece como ninguém.
Eu
estava confuso, mas entendi na hora que ele tinha toda a razão.
- Você deveria trabalhar para o governo
como filósofo – eu disse. E aquilo veio do fundo do meu coração.”
(“O Dia do Curinga”, Jostein Gaarder,
Companhia das Letras, São Paulo, 1996, Páginas 108 a 110.)
(Marcos
Nunes Filho – 29-5-2019)

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