“ ‘É agora que vai me tomar por um
louco... quando lhe disser que quase os vi... eu... numa noite dessas. O senhor
sabe, ou talvez não saiba, que estamos na época das estrelas cadentes. Na noite
de 18 para 19, principalmente, veem-se todos os anos uma quantidade enorme; é
provável que, nesse momento, passemos através dos destroços de um cometa.
‘Estava
sentado na Mane-Porte, nessa enorme falésia em forma de perna que dá um passo
para o mar, e observava essa chuva de pequenos mundos sobre a minha cabeça,
isso é mais divertido e mais belo do que fogos de artifício, senhor. De
repente, avisto acima de mim, muito perto, um globo luminoso e transparente,
rodeado de asas imensas e palpitantes, pelo menos pensei ver asas na
semiobscuridade da noite. Fazia curvas como um pássaro ferido, girava sobre si
mesmo com um grande ruído misterioso, parecia ofegante, agonizante, perdido.
Passou diante de mim. Parecia um monstruoso balão de cristal cheio de seres enlouquecidos
que mal se distinguiam, mas que se agitavam como a tripulação de um navio em
perigo, já sem leme, e que rola de onda em onda. E o estranho globo, tendo
descrito uma enorme curva, foi cair ao longe, no mar, onde ouvi a sua queda
profunda semelhante ao ruído de um tiro de canhão.
‘Todos
na região, aliás, ouviram esse choque formidável que foi confundido com um
trovão. Só eu vi... vi... Se tivessem caído na costa perto de mim, teríamos
conhecido os habitantes de Marte. Não diga nada, senhor, reflita, reflita muito
e depois, se quiser, conte isto um dia. Sim, eu vi... eu vi... o primeiro navio
aéreo, o primeiro navio sideral lançado no infinito por seres pensantes... a
menos que tenha assistido simplesmente à morte de uma estrela cadente capturada
pela Terra. Porque o senhor não ignora que os planetas caçam os mundos errantes
do espaço como nós perseguimos aqui os vagabundos. A Terra, que é leve e fraca,
só pode deter, em seu caminho, os pequenos passageiros da imensidão’.”
(“Contos Fantásticos”, Guy de Maupassant,
L&PM, Porto Alegre, 2002, in “O Homem de Marte”, conto de 1889, Páginas
136-137.)
(Marcos
Nunes Filho – 31-1-2020)
AQUI NA TERRA SÓ EXISTEM DOIS PODERES: O
DINHEIRO E AS ARMAS. TODOS OS DEMAIS SISTEMAS DEPENDEM DO 1º. ALGUNS, DO 2º.






























